Arquivo para Maio, 2009

Analisando a ignorânica alheia.

anna

A pessoa da foto acima sou eu. Sim, eu sou/estou careca e não importa se é por opção minha ou por alguma outra “força” maior. O que me deixa muito triste é como as pessoas ao meu redor, desconhecidas ou próximas, se comportam quando vêem algo ao qual não estão acostumadas e como reagem de maneira absurda ao que consideram anormal segundo seus paradigmas. Há duas semanas fiquei careca e há duas semanas eu ouço piadinhas, comentários e insinuações que, se eu não tivesse mantido o sangue frio, já teria metido a mão na cara de muita gente, inclusive das que eu gosto (ou pelo menos gostava).

Ontem eu ouvi as duas últimas e por coincidência as que mais se apresentaram de muita, mas muita falta de educação. Foram as seguintes: “Para mim, mulher careca é sapatão” e “Menina, mas o que foi que você fez com o seu cabelo? E o casamento, você não vai?”. A última, eu explico. A prima do meu namorado vai se casar daqui a duas semanas e a mãe dela ficou indignada pelo fato de eu ter raspado o cabelo e ir ao casamento desse jeito. Eu quero mais é que a filhinha dela vá pro inferno e que o vestido pegue fogo junto com a igreja. Para fechar com chave de ouro, duas senhoras ficaram me apontando na passarela do metrô, enquanto eu descia as escadas rolantes a caminho da faculdade. Minha vontade era de jogar as duas pra debaixo do trem.

Daí eu fico aqui a me perguntar: por quê? O que faz alguém ter prazer em deixar alguém envergonhado por causa da condição física ou outro? Ser careca não faz com que eu tenha uma piroca no meio das penas, que eu seja nazista, que eu seja de má índole, que eu seja anormal ou menos gente. Um cego jamais me trataria diferente ou teria uma opinião pré-concebida ao meu respeito porque não sabe que eu sou careca, não? Então, para que apontar o dedo aos outros sem medir as conseqüências? Será que quem aponta outrem ainda não percebeu que seus outros três dedos estão apontando-lhe de volta?

Eu sei que não adianta querer mudar o mundo, mas será que é pedir demais que pelo menos as pessoas que sabem que encontrarão-se comigo ainda muitas vezes na vida e as que não podem fugir do meu convívio tenham o mínimo de discernimento para entender que eu, Anna Paula, tenho meus brios e meus sentimentos e que a minha paciência tem limite?

Depois alguém me vê no metrô mostrando o dedo do meio para duas velhinhas e ainda vai ter a coragem de dizer:

- Também, olha pra ela… Até careca ela é.

Vovô e coca-cola.

Quando eu tinha seis anos, numa tarde de domingo, fiquei observando meu avô cochilar no sofá da sala. Ele costumava fazê-lo sempre depois de almoçar ou quando assistia à televisão, o que é de hábito dos velhos. Fechava lentamente os olhos e entregava-se a Morfeu sem a menor cerimônia; a cabeça pendia levemente para frente e logo em seguida era jogada para trás como que por uma força invisível. Com a boca escancarada, dava início à ópera de trovões que nem mesmo Thor seria capaz de orquestrar. Enquanto eu o observava, de pé, parada, quase encostando meus joelhos nos dele, beberiquei o copo de coca-cola que trazia nas mãos. Aquela bocarra escancarada, que mais parecia um poço sem fundo, convidou-me a ficar na ponta dos pés e, fazendo o máximo de esforço para não acordá-lo, despejei todo o conteúdo preto e gelado goela dele abaixo. O velho despertou de um naufrágio onírico debatendo-se tanto que parecia que lutava para continuar vivo.

Eu achei aquilo tudo muito divertido, mas minha mãe não viu a menor graça. Infelizmente, ela não goza do mesmo bom humor e eu tive que pagar por isso.

Em cada lado da bunda, claro.